segunda-feira, 29 de março de 2010

Entendendo With or Without You

The Joshua Tree foi o álbum de maior repercussão dentro do meio musical no fim da década de 80. Lançado em 1987, esse álbum foi um grande divisor na carreira do U2. Até ali, a identidade pós-punk da banda soava nos ouvidos dos fãs e curiosos. Mas alguns trabalhos anteriores já davam a ideia do som que o Joshua tree traria. Com a convocação de Daniel Lanois, a banda passou a trabalhar mais os sentidos e os sons da nova era musical. Mas a visita aos Estados Unidos influenciou de vez a vida da banda. Juntando com o sentimento político e religioso, surgia a Árvore de Josué.

Nesse álbum encontramos um número gigantesco de simbolismo, tanto na composição das músicas, quanto nas fotos registradas no álbum. A melancolia e a auto-análise desfocadas das lentes que registraram uma essência de uma banda que chegava ao seu auge, resgatando a alma do blues, do jazz, do rock e do gospel americano. Do povo negro sofrido e já homenageado em outras canções com Pride e MLK. Como não pensar em política social quando se fala do U2? Mas não é disso que irei tratar neste pequeno artigo, mas sim dos arquétipos simbólicos de suas canções e composições.

Amor, dor, esperança, paixão, queda, religião. São variados os temas das músicas encontradas no Álbum. Irei agora destelhar uma delas e apresentar a sua planta arquitetônica. Sua estrutura em essência, e duas das mais próvaveis versões, uma vez que Bono e seus companheiros não revelam os sentidos de suas artes. “Qual o sentido da arte se ela não possuir mistério ou vários sentidos”? A música é uma das minhas favoritas. With or without you.

Com ou sem sentido – Sejamos interativos

Amor ou Fé? Uma amante, ou Jesus Cristo? Utopia ou Religião? O simbolismo dessa canção nos leva a um mundo extremamente doloroso, onde tudo quer dizer algo, nos lembra algo, nos remete à possibilidades fantasiosas, ou resumidamente, ao mundo das Ideias. Filósofos já retrataram o amor, já descreveram a fisiologia do amor, da paixão, anunciaram o Platonismo. Amor é uma escada de sete degraus, já diziam. Sofrer de amor é Paixão. Paixão é dor, pois de tudo se anula, e só vive quando há um sustento.

Costumo dizer que uma pessoa apaixonada é como um bêbado inclinado para o lado que precisa de outro sustento para se manter de pé. E esse outro sustendo é uma outra pessoa bêbada. As duas se inclinam e forma um compasso perfeito no qual com calma, os dois passam a andar e trilha um caminho. Mas aquele que ficar sóbrio em primeiro lugar vai cansar, ou não de sustentar o outro. Daí vem os questionamentos. Daí vem aquilo que podemos chamar de amor. Ou tem, ou não tem. Caso não tenha, o outro bêbado cairá no chão, e a queda irá doer. Algo nesse bêbado irá mudar, até ele mesmo ficar sóbrio. Um questionamento interno passa a ser feito. Um processo de reabilitação começa. E é nesse mundo melancólico, nublado e doloroso que ficam as poesias, a arte e a representação. A paixão é um mundo sombrio e fantasioso, onde os anjos e os demónios se confrontam dentro de nosso estômago, dando aquele frio e nos fazendo tomar decisões sem muitos questionamentos, mas sim, poéticos. A “fantasia real” nos tira o chão. E essa fantasia que marcou shakespeare com seu Romeu e sua Julieta. A impossibilidade de se viver aquilo. O envenenar-se por amor. O apunhalar-se por paixão. As juras eternas. Os laços. Como não nos remetermos aos clássicos literários quando mencionamos algo que nos remeta ao questionamento do amor.

“Não posso viver com, mas não sei viver sem você”, diz a musica escrita e composta pelo U2. With or without you caiu nos ouvidos populares, fez sucesso e tornou-se manjada em baladas e cansada pelos próprios fãs e autores. Mas a nuvem misteriosa que cobre a música é muito mais densa do que os intelectuais que a esnobam pensam. A representatividade simbólica da música nos leva à algumas interpretações que a canção nos traz, pois os compositores fazem questão de não revelar sua verdadeira natureza. Mas uma coisa podemos ter total e absoluta certeza: a dor está presente na canção, seja ela sobre Cristo, seja sobre um homem que sofre de amor.

A composição começa com um som eletrônico de bateria bem abafado e um vibrafone representando assim a descrição de um corpo humano de um amante. A bateria soa como as batidas de um coração. Já o vibrafone é composto de uma forma que lembra um fluxo de algo circulando, ou ondulando. A música começa como um ser-humano, com as batidas de um coração impulsionando o sangue que circula o corpo. Por toda ela, podemos ouvir ao fundo a circulação desse sangue, sem parar. Mas a bateria sempre vai aumentando sua velocidade, de acordo com a evolução desse sentimento.
Pa ser mais interativo disponibilizarei aqui o vídeo com a música. Quando a barra estiver cheia, aumente o volume e leia o texto, percebendo as descrições.

Aperte o Play!



Começa a música. A bateria e o vibrafone dão vida à ela. É o coração e o sangue circulando nesse ser. O Baixo de Adam Clayton aparece, assim como a bateria, abafado, morno, calmo, assim com um pulso. É o pulso deste Ser. Ao mesmo tempo, uma guitarra do The Edge produz um som chamado “Infinity Guitar” lembrando um violino, mas trazendo as variações entre notas que ecoam como um frio que nasce na barriga, aquele primeiro sinal trêmulo de uma paixão que nasce, mas que dói. Do que seria essa dor? Saudade? Decepção? Arrependimento?

“Vejo a frieza de seus olhos / Vejo os espinhos que entornem em sua volta / E eu espero por você”. Essas são as primeiras frases ditas por Bono, em uma voz embargada por uma melancolia assombrosa. “Jogos de mão desfiguraram o nosso destino / Em uma cama de pregos, ela me fez esperar / E eu espero, sem você” continua Bono. Aqui ele utilizou dois tipos de pronomes “Ela” e “Você”, no que isso tende a nos dizer que ao mesmo tempo que ele desbafa, ele conversa com a pessoa. Mas como assim? Eis ai um dos mistérios dessa música. Essa pessoa está viva? Presente? Ou ele fala com uma imagem virtual dela, um pensamento, uma ideia?

A partir daí, a bateria começa a ficar mais forte. A guitarra de The Edge soa em dois sons semelhantes, paralelos, porém, um mais agudo que o outro. Começa a travessia pelo mundo da paixão, o retrato de um frio intenso, de uma solidão, de uma angustia começa com esse desentendimento entre sentimentos. “Pelas tempestades chegamos às margens / Você deu de tudo mas eu quis mais / e eu espero sem você”. Como não interpretar esses versos tão claros como um alguém que foi ao seu limite? Alguém que passou por provas, questões e chegou a conclusões, e por isso está só, mesmo que a contra gosto. Nesse mesmo verso, o som da guitarra vai ganhando uma vibração mais forte, pois a angustia desse Ser vai aumentando, “Com ou sem você, Com ou sem Você / Não posso viver, Com ou sem você”. É nesse momento que as dores se revelam, e as emoções começam a subir como um rio prestes a transbordar.

Perceba força da bateria. A revolta da guitarra. Esse verso pode ser traduzido de duas formas (“And you give yourself Away”): “E você se entregou” ou “E você se foi”. Aqui percebemos um pequeno eco na voz de Bono realçado com o Backvocal de The Edge. ‘Então alguém foi embora’, foi embora, ou faleceu?

No ultimo verso da música, percebemos a descrição agonizante do amor nas guitarras de Edge. São três sons diferentes e desalinhadas delas. Duas em “infinity guitar” e uma provocando toda a revolta em acordes repetitivos. É nesse verso que o personagem se prepara para a realidade. “Minhas mãos estão atadas / Meu corpo dolorido pois ela me conseguiu com / Nada a ganhar e nada mais a perder”. Repare na guitarra. Ela tem um som ecuoso de um choro, de uma agonia. Uma pequena revolta estendida dentro da realidade. “And you give yourself away” volta a aparecer, dessa vez em uma voz mais aterrorizada, abalada com tal verdade. “Com ou sem você, eu não vivo, com ou sem você”. A musica sobe ao seu ápice, seu clímax. Ela explode em emoção. O grito agoniante do personagem de Bono é acompanhado com vários choros de guitarras, assim como os beatles uma vez disseram em uma de suas músicas. Um grito tão forte de voz, guitarra, baixo, as viradas da bateria de Larry Mullen Jr. Como se fosse um coração em extrema dor.

Nessa hora, tudo se cala. Tudo se acalma. Não há mais força. Tudo está sombrio. A única coisa que podemos ouvir são as batidas do coração, o sangue circulando e os resquícios de agonia da guitarra. Ouve-se então um choro de longe. É a voz do Ser de Bono, e junto dele uma guitarra também chorosa. Mas a vida continua, assim como a música em acordes agradáveis. Nesse momento tudo entra em completa harmonia sonora. É a hora do personagem ressurgir das cinzas, bater a poeira e seguir em reticencias, como deixa claro o fade out.

Esse é o personagem platônico e Shakespeariano do U2. Mas além do amor entre dois seres, essa música pode retratar a visão que as pessoas tem da fé em Cristo e sua Paixão. Os espinhos retorcidos, o “Give yourself away”. Como não imaginar uma pessoa em crise religiosa, com fé perdida e se questionando sobre o seu caminho? Como negar a ressureição da música tão harmonioza e tão relaxante em um desfeixo que se prolonga em Fade? Você que aqui estálendo pode ter uma interpretação completamente diferente, Pois Bono e seus companheiros deixam seus ouvintes a vontade para interpretar essa canção. Há quem diga que essa música retrata a própria caminhada de Bono até chegar a sua vida de fé após a morte de sua mãe, na adolecência. Mas uma coisa é certa. De todo album Joshua Tree, ela se destaca, tanto pela criatividade simbólica, quanto pelo experimentalismo exagerado que ela possui. Apesar de ser em uma mesma linha de notas em uma harmonia simples(Ré, Lá, Si menor, Sol), ela é vista pelos especialista como uma composição extremamente complexa, cheia de sentidos e significados poéticos.

9 comentários:

7 disse...

Sinceramente, a sua análise foi melhor que eu encontrei até agora. É simplesmente perfeita! Gostaria que fizesse o mesmo pela 'Original Of The Species', porque a letra já é linda em si, mas eu gostaria muito de ler sua análise. Tenho um blog também, que fiz a uma semana e gostaria de postar análises suas ou colocar seu blog dizendo sobre elas. Obrigada.

Queen 7

thabianchi disse...

eu tô embasbacada com a sua análise! é algo simplesmente brilhante, magistral! de verdade: meus parabéns! a melhor análise de With or Without You que eu achei, justo quando eu estava me preparando pro show do U2 que vou na quarta, 13/04! obrigada por essa genialidade! :D abraço!

azul disse...

REAMENTE 0EU0 ACHO SUA INTERPRETAÇAO OTIMA,MAS COM CERTEZA ESSA MUSICA FALA DOS SENTIMENTOS E DA VIDA DO AUTOR DE UMA MENEIRA EXTREMAMENTE VERDADEIRA,NADA NESSA MUSICA É MENTIRA,FORAM COISAS VIVIDAS E BEM MARCADAS NA VIDA DO bono,eu tbm 0acho uma das melhores delre,en0fim uma obra prima q vai ser eterna,assim como a dor q se passa e n se esqueçe,e 0com isso nos tornamos muito mais fortes,

Fer Duarte disse...

Que análise perfeita!!! Nunca ia imaginar esse sentido. A análise abriu meus olhos... Amei!!!

Fredson Fred disse...

Colocação perfeita ,surpreendente !

Odivania Oliveira disse...

amei todas as palavras.

Vanessa Ribeiro disse...

Nem sei quantas vezes já li esse post desde de que o descobri - isso já tem alguns anos, mas nunca havia comentado aqui, apesar de já ter mostrado pra mt gente.
Sempre amei essa música, a forma como ela consegue te envolver e fazer parecer que tá saindo do seu peito - e ñ entrando pelos ouvidos...
Esse post coloca em palavras o que se sente ouvindo a música.
Até hoje With or Without - U2 continua sendo - para mim - a música que melhor descreve a experiência de se apaixonar, cair de amores por alguém impossível.

Ana Noletto disse...

Nunca havia entendido completamente essa música até ler seu texto. Realmente um classico do U2 cheio de sentimentos. Parabéns pela análise !!!!

Carla Mastrorocco disse...

Essa é a música que mais gosto de TODAS! E você a descreveu brilhantemente.... Parabéns pela análise!